Hugo Motta (republicanos – PB), presidente da Câmara dos Deputados, tem usado o argumento de combater os supersalários dos servidores públicos para defender uma reforma administrativa no estado brasileiro.
Não é a primeira vez que um político brasileiro faz sua carreira política em cima dos servidores públicos.
O ex-presidente Fernando Collor cunhou o termo “caçador de marajá” nas suas campanhas com a proposta de enfrentar os supersalários e os supostos privilégios do funcionalismo público. Foi eleito presidente da república, na primeira eleição direta após a ditadura militar, sob esse lema.
Mas a máscara de “caçador de marajá” não durou muito e ficou claro quem era o verdadeiro Marajá. Collor foi impeachmado em 1992 por crime de responsabilidade ao usar cheques fantasmas para o pagamento de despesas pessoais. Collor que dizia que os servidores eram privilegiados, foi desmascarado diante do Brasil inteiro com vários escândalos de corrupção. Quem não se lembra do escândalo do tesoureiro PC Farias, acusado de pedir dinheiro a empresários e oferecer vantagens no governo? E o confisco da maior parte do dinheiro da poupança dos brasileiros?
Finalmente, em 2025, Collor foi preso. O ex-presidente foi condenado em 2023 a 8 anos e 10 meses de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro, acusado de receber R$ 20 milhões em propinas por negócios da BR Distribuidora, subsidiária da Petrobras.
Agora, novamente, é retomado com força o discurso de que os servidores acumulariam supersalários e privilégios. Esse é um discurso apelativo porque dialoga bastante com a dura realidade da maioria dos brasileiros que vivem com o mínimo. E, de fato, os supersalários, aqueles acima do teto constitucional, devem ser combatidos. Mas também precisa ser dito que a esmagadora maioria dos servidores não tem supersalários. De acordo com PNAD Contínua de 2023, somente 0,3% dos servidores efetivos do país recebem acima do teto salarial estabelecido pela Constituição.
Assim, na prática, o caçador de Marajá nada mais é que o político brasileiro que ataca os servidores públicos para desviar o foco dos verdadeiros problemas do país e manter seus próprios privilégios. E esse tem sido o modus operandi do Congresso inimigo do povo: ao invés de votar o fim da escala 6X1 e a taxação dos super ricos, eles votam pelo aumento da conta de luz. E a reforma Administrativa é parte dessa lógica de manutenção das desigualdades: esvaziar a função social dos serviços públicos, abrindo caminho para as empresas privadas expandirem seus negócios.
O discurso de Hugo Motta e do coordenador do GT sobre Reforma Administrativa, Deputado Pedro Paulo (PSD-RJ), é de que o estado brasileiro precisa se modernizar e reduzir custos, tornando a administração pública mais eficiente. Mas, na prática, o texto base discutido no GT, aponta para o enfraquecimento dos serviços públicos e precariza o trabalho dos servidores.
Toda a tese que sustenta o texto base é fundamentada na lógica de eficiência do setor privado e não na lógica de resultado baseada nas necessidades do povo brasileiro. O objetivo não é modernizar para crescer a função social do Estado e nem mesmo proteger a economia do país, mas reduzir o Estado apenas no que diz respeito a seus custos sociais.
Abre-se também caminho para ampliar a corrupção na administração pública ao criar a instabilidade dos novos vínculos contratuais. Diferente do que dizem os caçadores de marajá, a estabilidade dos servidores não é um privilégio, mas um mecanismo fundamental para impedir que o estado brasileiro seja usado para interesses privados, pessoais ou políticos. Se não fosse a estabilidade dos servidores públicos, até hoje não saberíamos que Bolsonaro tentou contrabandear joias ou falsificar a carteira de vacinação.
E é pra justificar tudo isso que os defensores da reforma ressuscitam o discurso de caçador de privilégios e supersalários, mas sob uma versão 2.0 de que não irá prejudicar os serviços públicos e os servidores. Mas a gente já conhece bem esse filme.



