Com nove décadas de existência, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), responsável por coletar, analisar e divulgar dados estatísticos, geográficos e demográficos sobre o Brasil, enfrenta uma onda de ataques orquestrada pelo bolsonarismo.
Os ataques fazem parte de uma campanha de deslegitimação que combina ataques digitais com perigo real aos servidores.
A Anatomia dos Ataques
Os ataques não começaram agora. Desde o governo Bolsonaro, o IBGE vinha sendo alvo da extrema-direita. Ao longo de sua gestão, o instituto enfrentou reduções significativas no orçamento e no questionário, sob a liderança do então ministro da economia Paulo Guedes, o que quase impediu a execução do Censo 2020. A realização do censo só foi possível graças à ação do ex-governador do Maranhão, Flávio Dino, que entrou com um processo no Supremo Tribunal Federal (STF) em abril de 2021 para evitar que o governo federal cancelasse o Censo Demográfico, que foi realizado em 2022.
Apesar das tentativas de comprometer a independência técnica do IBGE ao longo de seus 90 anos de existência, isso nunca ocorreu, graças à firme resistência dos técnicos da instituição e ao trabalho de sua representação sindical, a ASSIBGE-SN.
Além dos cortes orçamentários durante o governo Bolsonaro, o bolsonarismo promoveu campanhas conspiratórias durante as eleições. A estratégia consistia em difundir notícias falsas alegando que os recenseadores, funcionários temporários que realizam visitas domiciliares para coletar dados do IBGE, estariam coletando impressões digitais dos eleitores para manipular os resultados das eleições. O objetivo era desacreditar o instituto como parte da estratégia para questionar os resultados das eleições e deslegitimar as instituições democráticas do país.
Mas não só isso. O objetivo é também impedir a participação da população nas pesquisas. Os boatos, disseminados nas redes sociais e nos grupos de WhatsApp, de que bandidos estariam se passando por funcionários do órgão para assaltar casas dissemina o pânico, dificulta o trabalho de profissionais legítimos e aumenta a taxa de recusa nas pesquisas.
Os ataques da extrema direita não só têm dificultado as pesquisas, mas também colocado os funcionários do IBGE em perigo. Os Agentes do Censo sofreram agressões verbais e ameaças físicas durante o trabalho de campo. Isso ocorre, em grande parte, devido a publicações nas redes sociais que caracterizam a atuação do IBGE como uma “invasão de privacidade” ou “instrumento de controle estatal”.
Para se ter uma ideia, segundo a FGV, 45% das menções ao instituto no X em 2024 partiram da extrema direita. Os principais perfis são de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). As publicações tentam descredibilizar os dados apurados pelo instituto. A política de desqualificar o IBGE vai desde a negação da queda nos índices de inflação e desemprego até a publicação do novo Atlas Geográfico Escolar. O novo Atlas apresentava o Brasil no centro do mapa, desconstruindo a ideia de que a Europa estaria no centro do mundo. Para a extrema direita, esta seria a prova de que o IBGE agiria de forma politizada.
Como muitos podem pensar, essas publicações não refletem apenas a falta de conhecimento do Bolsonarismo. Também representam um ataque estratégico que faz parte dos planos da extrema direita para o país. Desacreditar a instituição publicas aos olhos da opinião pública e da população brasileira.
A Realidade como Inimigo
Para a extrema direita, o IBGE representa um empecilho para suas narrativas falsas. Quando estavam no poder e os dados mostravam crescimento da desigualdade ou continuidade da fome, a tática desses grupos não era discutir soluções, mas desacreditar o IBGE. Simultaneamente, quando há uma melhora nos índices de inflação e desemprego durante o governo Lula, os números do IBGE são considerados falsos pela extrema-direita, pelo Centrão e pelos detentores do poder econômico.
Ao descredibilizar o IBGE, a extrema direita está sabotando o país. O IBGE serve como uma bússola para os governos. Seus dados guiam políticas públicas, alocação de recursos para os municípios e áreas do governo, monitoramento econômico e social e, inclusive, tomada de decisão do setor privado que utilizam os dados do portal IBGE para planejar investimentos e entender o perfil do consumidor.
Este cerco afeta diretamente a soberania do país. Isto porque a soberania de dados diz sobre a capacidade do país produzir sua própria informação sem dependência externa ou manipulação. Sem dados soberanos, o país fica dependente de dados de instituições privadas ou organismos internacionais que possuem seus próprios interesses.
Contra-atacar
É tarefa de todas e todos que defendem um Brasil Soberano lutar contra a desinformação e pelo fortalecimento do IBGE. A melhor forma de derrotar os ataques da extrema direita contra o Instituto e minar os seus planos de poder é garantindo autonomia técnica e orçamentária para que o órgão não fique à mercê do governo de plantão. É valorizar os servidores que constroem o Instituto todos os dias. Profissionais concursados e protegidos pela estabilidade são barreiras fundamentais contra tentativas de controle político. Como afirma o ASSIBGE em nota em defesa do Instituto, “o IBGE pertence ao povo brasileiro. Proteger sua credibilidade é proteger o direito da sociedade de conhecer a própria realidade, sem filtros e sem distorções”.



