Arquivo SINDIFES-MG
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Como é a realidade de uma mulher, negra e LGBTQUIA+ à frente da maior categoria de servidores do executivo?

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Neste mês de março, o Fonasefe entrevistou a servidora pública Cristina del Papa. Cristina tem mais de três décadas de serviço público e, atualmente, faz parte da Coordenação Geral da Fasubra e também compõe a Coordenação Geral do SINDIFES. Mineira de Belo Horizonte, Cristina é Assistente de Administração da Universidade Federal de Minas Gerais. 3 anos após ingressar no serviço público, Cristina inicia seu ativismo no movimento sindical, somando 28 anos de contribuição à luta dos trabalhadores e em defesa dos serviços públicos.

Cristina está à frente de uma categoria que reúne mais de 225 mil trabalhadores das Instituições Federais de Ensino, que estão presentes em todo o Brasil, sendo considerada a maior categoria do serviço público federal dentro do executivo.

Nas próximas linhas, a partir da sua experiência no movimento sindical, Cristina nos conta um pouco sobre os avanços e desafios em ser mulher no sindicalismo brasileiro e no serviço público.

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1 – Conte um pouco da sua história? Como entrou no movimento sindical?

A minha história no movimento sindical começa em plena era de Fernando Henrique Cardoso, que ficou conhecido como FHC. Tem até uma coisa engraçada nesse começo. Na época, a nova geração, que entrou para o serviço público e para o movimento sindical, foi chamada de “pé frio”, sabe?

Nessa época, os servidores públicos federais perderam vários direitos, como licença-prêmio, anuênios, incorporações  adicionais, percentual sobre a contagem de tempo e muitos outros direitos.

Fizemos muita greve para segurar direitos. Nós, do movimento da educação, naquela época, fizemos greve não para ganhar alguma coisa, mas pra segurar o que nós já tínhamos.

Lembro que entrei no movimento grevista de 1998, quando o FHC propôs a reforma administrativa e da previdência. Foi uma greve muito grande dos servidores, conseguimos barrar a reforma da previdência para o serviço público, mas, infelizmente,  não conseguimos impedir a reforma administrativa daquela época. Foi aí que entrei no movimento grevista e consequentemente no movimento sindical.

Lembro também da greve de 2001 quando o FHC propôs retirar o que tínhamos no contracheque que era a GAE (Gratificação de Atividade Executiva), uma gratificação que significava 180% em cima do nosso vencimento básico que era muito pequeno. A FASUBRA orientou a saída para o movimento grevista em âmbito nacional. Fui pela primeira vez em uma assembleia de greve. Fui levada por uma amiga, que é minha amiga até hoje, Rosângela Santos. Eu fiquei fascinada pelo movimento paredista, o movimento sindical.

Nas greves, fui me enturmando, criando laços com as pessoas. A partir dessas lutas, criamos um grupo político na UFMG, no qual tínhamos identificação ideológica, de pensamentos e posicionamento político dentro do movimento sindical. O grupo reunia pessoas que tinham o mesmo olhar, o mesmo interesse, o mesmo senso ético e o mesmo sentimento de luta em prol da nossa categoria.

Então, a minha trajetória foi através desse juntar de pensamentos e posições políticas. Eu me firmei como uma liderança na UFMG, depois dentro da base do SINDIFES e, hoje, uma liderança nacional.

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2 – Qual a importância das mulheres participarem do movimento sindical? E quais os principais desafios?

Vou começar primeiro pelos desafios. Quando entrei no movimento, há 28 anos, o movimento sindical era um dos movimentos mais machistas que tinha entre todos os movimentos sociais. A participação das mulheres era realmente um verdadeiro desafio.

Éramos vistas como se não tivéssemos a mesma inteligência dos homens; que nós não conseguiríamos tomar as decisões acertadas como os homens tomariam. Quando ficávamos bravas, estávamos de TPM ou diziam: ‘Ah, essa mulher é louca’. Eu já ouvi isso algumas vezes, principalmente, que eu estava de TPM.

No movimento sindical, pelo menos isso aconteceu comigo, eu percebi que eu tinha que ser brava, tinha que ser mão de ferro para que as pessoas me respeitassem, sabe? Às vezes tive que, literalmente, bater a mão na mesa para ser escutada. Várias vezes eu tive que ouvir um homem dizer: ‘Ah, eu vou explicar o que ela falou’.

A verdade é que só o fato de ser mulher já era um desafio para entrar no movimento social e sindical.  A gente ouvia também: ‘Ah, mas você não tem família não?’; ‘Ah, você não tem quem cuidar em casa não?; ‘Ah, você vai ter tempo  para se dedicar ao movimento?’.

Quando íamos para atividades sindicais em Brasília, a gente ainda ouvia: ‘Ué, mas você pode ficar fora de casa esses dias todos? Você não tem família para cuidar não?’; E o pior, os homens achavam que éramos mulheres “fáceis” para as quais poderiam fazer assédio sexual e fazer propostas indecorosas.

Então, o maior desafio que tivemos foi o machismo. Ter que provar que nós, mulheres, também temos condições, que podemos ocupar todos os espaços e os espaços de poder; que, nós mulheres, pensamos e somos inteligentes. Ter que falar o óbvio. Quando ficamos bravas, não é TPM. E que a gente não está louca por se impor e ocupar os espaços, principalmente de poder. E que também sabemos gerenciar e comandar.

Foi muito difícil. É ainda é muito difícil, mas é possível atravessarmos e superarmos todos esses desafios. E a minha posição hoje dentro do movimento sindical nacional demonstra claramente que podemos e devemos alcançar os espaços de poder com o olhar feminino e feminista.

A importância das mulheres participarem do movimento sindical é porque, nós mulheres, trazemos, pelo menos a meu ver, um olhar e pensamento mais humanizado, sabe? Um pouco mais leve e carinhoso quando necessário. A mulher consegue fazer as coisas numa leveza que os homens não conseguem, mesmo estando brava.  

A relevância maior da mulher no movimento sindical, na minha avaliação, é que nós conseguimos fazer essa transformação em relação ao gênero. De mostrar que nós somos capazes, que nós também podemos, que nós também sabemos o que queremos alcançar e quais são os objetivos. É extremamente importante estar no movimento sindical para transformá-lo com os pensamentos, posicionamentos e olhares das mulheres, além de ser fundamental que nos posicionemos sempre.

 

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3 – Como você concilia a sua atuação no movimento sindical com trabalho e família?

Pois é, essa é uma boa pergunta. Se os homens podem, por que nós não podemos?!

Essa conciliação, no meu caso, foi e é mais fácil, porque eu não tenho filhos. Sou homossexual, lésbica, sapatão, não tenho problema nenhum das pessoas olharem assim. Pois, o que foi um xingamento e uma forma de nos constranger,  agora é uma forma da nossa comunidade se reafirmar contra o preconceito e a homofobia. Porque nós existimos e resistimos!

Tenho uma companheira que entende a minha presença no movimento sindical, que tem o mesmo posicionamento política de esquerda, que conhece todos os meus amigos, que participou e participa junto comigo de passeatas e conhece a luta dos movimentos sociais. Ela trabalha em sindicato, então, ela tem o entendimento que a minha presença nas lutas é importante. Por ser mulher também é mais fácil ter essa visão de como é difícil para o trabalho e as lutas  para as mulheres.

Nós somos casadas há 25 anos e fizemos a opção por não termos filhos. Não tivemos essa parte da preocupação das mulheres que se preocupa com filhos. Mas tem o cuidado com as nossas famílias, principalmente com nossas mães.

A mãe dela faleceu primeiro há quase uma década. A minha mãe faleceu ano passado em março. Foi um baque muito grande para mim. Eu tinha essa preocupação com a minha mãe. Assim que a gente casou, minha mãe veio morar com a gente, não quis morar com os meus irmãos.

Todas as vezes que eu viajava, que eu ficava fora, minha companheira tomava conta de minha mãe. As duas sempre se entenderam bem. Então, eu não tive toda essa dificuldade de adaptação em relação ao movimento sindical como outras mulheres tiveram. Mas eu ouvia da minha mãe: ‘Nossa, você tá se doando tanto e você não ganha nada pra isso. Você fica aí viajando e se desgastando e as pessoas não dão valor’.

E antes a gente viajava de ônibus, nem tinha essa facilidade de viajar de avião. Não tinha as facilidades de comunicação como tem hoje. Era perigoso, né? Minha mãe sempre ficava com medo e minha companheira também.

A minha atuação não teve grandes altos e baixos pela aceitação da minha família, principalmente, do meu pai, que também veio do movimento sindical. Ele foi bancário e, na época dele, ele fez parte da diretoria do sindicato dos bancários. Fez greve também. Meu pai e minha mãe tiveram uma escola de samba em BH chamada Vila Rica. Então, eu vim desse ambiente mais coletivo enfiado no movimento social. Depois, eu passo para o movimento sindical. Então, eu não tive grandes problemas com minha família em relação a essa atuação. O mesmo não posso dizer do movimento sindical e social, pois além do machismo também sofri preconceito pela minha orientação sexual.

4 – “Teto de vidro” é uma expressão que simboliza barreiras invisíveis que impedem a ascensão de mulheres a posições de poder. Essas barreiras existem no movimento sindical?

Claro! Por tudo o que eu já falei até agora, infelizmente, sim. Não só as invisíveis.

Mas, nós mulheres guerreiras e de luta, brigamos para que os sindicatos garantissem as condições necessárias para que pudéssemos e possamos estar no movimento sindical e político. Brigamos para que os sindicatos e federações financiassem, por exemplo, não só a ida dessa mulher para os fóruns do movimento, mas também para que as crianças pudessem e possam estar com as suas mães ou que elas possam pagar alguém para olhar essa criança dentro de casa.

A participação das mulheres no movimento sindical vem transformando o movimento  também para que esta mulher possa ter as condições adequadas para ser sindicalista em pé de igualdade, assim como tem para o homem.

Eu fico muito irritada com isso, sabe? Só dando um exemplo que acabou de acontecer. Recentemente,  eu fui numa assembleia da nossa cooperativa de crédito aqui da UFMG. É um homem que dirige o Conselho. A mesa de abertura da cooperativa tinha sete pessoas, seis homens e uma mulher. O homem que dirigia o Conselho apresentou todos os homens e, na hora que ele foi apresentar a mulher, ele disse: ‘Ela, na condição de mulher, com família, com filhos, é extremamente competente, e a família nunca atrapalhou a sua trajetória profissional’. Olha que fala mais machista! Eu fiquei possessa. Quando acabou o evento, eu fui falar com ele e disse: ‘Vem cá, por que você não apresentou a mulher nas mesmas condições dos homens? Homem não tem família, ele não tem dificuldade dentro de casa? Por que só nós mulheres temos que ser lembradas dessa forma?’. Então, ainda hoje a gente escuta isso, né?

Ainda escuto e percebo olhares por conta da minha representação na FASUBRA, quando estou em uma mesa de negociação por exemplo: ‘Nossa, tá ocupando uma coordenação geral de uma entidade que congrega 225 mil pessoas?’. Eu ainda sinto esses olhares, sabe? Ainda mais por ser mulher, negra e LGBT. Então, eu tenho aí um pacote, e já sofri em vários momentos machismo, racismo e homofobia.

Mas é fato também que, com muita luta e competência, quebramos muitas barreiras. Mas ainda temos muitas barreiras para quebrar.  É tanto que a gente vê ainda no Brasil um quantitativo imenso de mulheres que têm morrido por feminicídio só porque os homens ainda acham que as nossas vidas pertencem a eles. Ainda passamos por isso em pleno século XXI.

E o movimento sindical e político, como eu já disse, era extremamente machista, mudou muito, mas ainda tem resquícios.

 

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5 – Apesar de representarem 45% da força de trabalho ativa nos serviços públicos, as  mulheres continuam sub-representadas em cargos de alta gerência. Na sua opinião, por que essa situação ainda persiste? E como a atuação das mulheres no movimento sindical pode reverter isso?

Não é somente em cargos de alta gerência, não. É nos cargos subalternos também. A grande maioria é homens. É lógico que os cargos de alta gerência, de ministérios, de altas gestões, eles são mais visíveis. E, no serviço público, a gente tem, infelizmente, essa hierarquia mais presente.

O serviço público veio das Forças Armadas na época do império, que eram hierarquizadas e gerenciadas por homens. E não podemos esquecer que as mulheres no Brasil só puderam votar a partir de 1950. Temos tentado mudar isso. Já conseguimos que o pé arredasse um pouquinho, mas não o suficiente.

Mas, realmente, a gente tem muita dificuldade de chegar a esses cargos. Exatamente por tudo que eu já disse. Temos um exemplo bem recente dessa realidade, que levou um golpe há pouco tempo atrás: a presidenta Dilma. As reportagens, na época, tentaram colocar Dilma como uma pessoa que tinha TPM, que era louca, que era incompetente. Então, até quando chegamos nesses cargos, ainda temos que passar por essas coisas. Mas, vimos que Dilma era tão incompetente que hoje é presidenta do Banco dos Brics.

Claro que temos conseguido ter conquistas, mas ainda temos muito para caminhar.  Faço, inclusive, crítica ao meu próprio partido. Sou filiada ao PT, mas é só olhar a configuração ministerial do governo do presidente Lula. Dos 37 ministérios existentes, temos 11 mulheres e 26 homens, e quando teve que tirar alguém do ministério, quem é que caiu primeiro? Uma mulher. As indicações para o STF foram até agora todas de homens. Quando verificamos quantas mulheres o PT tem em mandatos eletivos de vereadoras, deputadas estaduais e federais e senadoras, não é muito diferente. Temos muito mais homens, brancos e héteros.

Então isso ainda persiste na política partidária e não somente no movimento sindical. E como fazemos para reverter isso? É uma luta diária, que veio lá de trás, com muitas que tombaram para que a gente pudesse estar aqui hoje.

Na FASUBRA, por exemplo, vivemos um marco. Com quase 50 anos de existência, é a primeira vez a FASUBRA tem três mulheres na coordenação geral.

Citando outro exemplo, que é a universidade onde eu trabalho. Com quase 100 anos, nós tivemos somente três reitoras mulheres na UFMG. Com 115 anos, nós tivemos pela primeira vez uma mulher como diretora da Faculdade de Medicina da UFMG.

Então, é uma luta cotidiana, e precisamos seguir lutando porque é só dessa forma que eu acredito que vamos conseguir reverter as situações que nos impedem de estar em cargos de chefias, principalmente de alta gestão. É na e com a luta coletiva que conseguiremos fazer essa transformação. E são as mulheres se unindo e  colocando suas pautas, brigando e lutando para que elas sejam atendidas  é que nós vamos conseguir mudar esse status quo.

5 –  Neste 8 de março, uma das principais pautas de reivindicação dos movimento de mulheres é a luta contra a violência de gênero. O Brasil bateu recordes de feminicídios em 2025 e, recentemente, o caso do estupro coletivo contra uma menina de 17 anos no Rio de janeiro ganhou comoção nas redes sociais. Como o movimento sindical tem contribuído no combate à cultura do estupro e a misoginia que mata mulheres todos os dias?

E não pode esquecer também do caso do TJ de Minas Gerais que absolveu um cara que “estava se relacionando com uma criança de 12 anos”, ou seja, praticou violência sexual com uma criança. Infelizmente, temos visto casos hediondos todo santo dia.

Infelizmente, o índice de violência, principalmente de morte, contra as mulheres aumentou assustadoramente. E a comprovação disso está nas notícias dos telejornais e nos dados estatísticos. Tivemos também um aumento muito grande de estupros, principalmente com mulheres e crianças e que continua crescendo.

Os sindicatos contribuem em muitas pautas, mas a gente ainda não conseguiu incluir o tema da misoginia e da cultura do estupro como pontos fundamentais nas  discussões dos congressos, seminários, encontros e plenárias do movimento sindical.

Esse é um dos desafios que nós temos que trazer para nós, mais uma vez. Eu participo de coletivos de mulheres para poder fazer essa discussão porque, muitas vezes, a gente não consegue fazer essa discussão no movimento sindical.

6 – Qual mensagem você deixaria para as mulheres trabalhadoras que ainda não participam do movimento sindical, seja pelas jornadas exaustivas ou por acharem que ainda é um espaço predominantemente masculino?

A primeira coisa que eu digo sempre que vejo as mulheres que estão se aproximando do movimento sindical e social ou do meu grupo de amizades é que nós mulheres precisamos participar, porque se nós não participarmos, a política vai ser feita de forma equivocada.

Porque quem nos conhece somos nós. Quem sabe o que nós precisamos somos nós. Então, portanto, somos nós que temos que debater o que é preciso mudar na sociedade para que as mulheres não sejam mortas, para que as mulheres não sejam estupradas, para que as mulheres consigam estar em mais cargos de chefia, para que as mulheres consigam estudar, para que as mulheres consigam ter salários iguais aos dos homens.  Porque, em minha opinião, nós somos mais inteligentes do que muito homem por aí.

Então é isso, é um chamado para que as mulheres venham e estejam no movimento sindical, social e político, porque só nós vamos conseguir transformar, ressignificar e propor políticas que sejam importantes para nós.

Aproveito para agradecer ao FONASEFE por ter sido escolhida para participar dessa entrevista neste mês de março que comemoramos o Dia Internacional das Mulheres.