Foto: asduerj
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3 argumentos que desmentem o editorial do O Globo a favor da reforma administrativa

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A grande mídia tem intensificado a sua campanha a favor da Reforma Administrativa em curso no Congresso Nacional. Recentemente, o jornal O Globo publicou um editorial defendendo a necessidade urgente do Estado brasileiro ser reformado para mudar, o que eles chamam de, “essa realidade perversa”. De acordo com o jornal, “o Estado brasileiro foi sequestrado por corporações encasteladas na máquina pública, interessadas em defender seus interesses em detrimento dos demais brasileiros”.

Por mais incrível que pareça, o editorial não está se referindo ao Congresso Nacional, que tem sequestrado a casa legislativa para aprovar medidas contra o povo brasileiro e em benefício próprio, como a PEC da Bandidagem e o aumento da conta de luz. A campanha do jornal é contra os servidores. Para a grande mídia, os servidores seriam os culpados por uma suposta ineficiência dos serviços públicos e a razão principal para o Brasil realizar uma reforma na administração pública.

A tese defendida pelo editorial não é nova: é preciso acabar com os supersalários dos servidores. Já vimos esse filme com Fernando Collor de Mello, presidente impeachmado e preso por corrupção, que atacava os servidores com o discurso de que seriam marajás. Já vimos também com Fernando Henrique Cardoso que chamava servidores de vagabundos. Por trás desses ataques, um mesmo objetivo: enfraquecer os serviços públicos, abrindo portas para terceirização e privatização; e atacar as políticas públicas de combate às desigualdades sociais.

O jornal usa da sua credibilidade jornalística para propagar desinformação. Nas próximas linhas, vamos apresentar 3 fatos e argumentos que desmentem o editorial.

1 – Supersalários
O discurso de que os servidores acumulariam supersalários e privilégios volta e meia reaparece por aqueles que defendem a agenda neoliberal. E, não é a toa, que voltou com força agora. A Reforma Administrativa completa a tríade de reformas neoliberais aprovadas desde o governo Temer. A Reforma Trabalhista foi aprovada em 2017, e a Reforma da Previdência em 2019. A Reforma Administrativa foi apresentada em 2020, inicialmente como a PEC 32, mas foi derrotada após rejeição e muita luta dos servidores públicos. Agora, em 2025, ela volta a cena como principal matéria do presidente da Câmara Hugo Motta (Republicanos – PB).

O problema é que esse discurso é uma mentira contada mil vezes, e que tem um apelo muito forte em uma sociedade que sobrevive com o mínimo. O fato é que apenas 0,3% dos servidores efetivos, segundo o PNAD Contínua de 2023, recebem acima do teto salarial estabelecido pela Constituição brasileira. A esmagadora maioria dos servidores estão endividados, 70% segundo Audiência Pública sobre superendividamento dos servidores, realizada pela Comissão de Defesa do Consumidor da própria Câmara dos Deputados em setembro deste ano.

Então, por que o Jornal O Globo diz que o combate ao supersalários deve ser a meta da Reforma Administrativa? Porque dizer que é preciso enfraquecer os serviços públicos não seria bem aceito para a esmagadora maioria da população que depende dos serviços públicos. Então, eles transformam a exceção, servidores que ganham supersalários, em regra para justificar todo um ataque ao conjunto dos servidores e aos serviços públicos. Em outras palavras, o correto combate aos supersalários é usado como desculpa para precarizar ainda mais o trabalho do conjunto dos servidores que estão, na realidade, endividados.

2 – Servidor é caro e ineficiente?
O editorial diz com todas as letras que o servidor brasileiro é caro e ineficiente. Mas não comprova. Pelo contrário, ignora dados fundamentais que apontam justamente para o contrário dessas conclusões.

Antes de mais nada, é preciso destacar que, finalmente, a grande mídia reconheceu que não há excesso de servidores no Brasil. Apesar dos dados demonstrarem há muito tempo que o Brasil tem poucos servidores considerando sua dimensão continental e quando comparado a outros países, esse foi um argumento muito usado para atacar os servidores.

Agora, o argumento do momento é que o estado gasta muito com os servidores. Esse argumento também foi usado para aprovar a reforma da previdência. Dizia-se na época que a reforma era necessária para acabar com o déficit da previdência porque se gastava muito com os aposentados. Mas o que vimos em 5 anos de sua aprovação é um distanciamento cada vez maior de milhões de brasileiros do direito à aposentadoria. E, claro, não houve superação do chamado déficit previdenciário. Isto porque o verdadeiro rombo no orçamento do estado é por causa dos juros da dívida pública, que consome mais de 40% do orçamento executado.

O Brasil gasta 13% do PIB com servidores, de acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento (OCDE). O jornal diz que os gastos estão acima da média dos países da OCDE e compara com os EUA que gastaria 8,7% do PIB com servidores. O que o jornal não diz é que o país norte americano é reconhecido mundialmente pela valorização da iniciativa privada. Um país que não tem um sistema de saúde como SUS e que não tem universidades gratuitas por exemplo. A esmagadora maioria dos servidores públicos brasileiros é de professores, médicos, enfermeiros e agentes de segurança que atuam diretamente na garantia de direitos sociais.

Outro grande absurdo do editorial é, os donos do jornal, do alto do seu privilégio, chamarem os servidores brasileiros de ineficientes. Não é isso que pensa a maioria do povo brasileiro que usa os serviços públicos. Pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha, encomendada pelo Movimento Pessoas à Frente, realizada entre 9 e 12 de junho desse ano, demonstra que a maioria dos brasileiros avalia positivamente os serviços públicos e defende a estabilidade para os servidores.

3 – Gastos com áreas sociais
Para completar a sequência de argumentos mentirosos, o editorial afirma que não só os servidores receberiam muito dinheiro, mas também as áreas sociais como saúde e educação. “A Constituição de 1988 destinou fatias generosas do Orçamento público a áreas como educação e saúde. Com o tanto que se investe, o Brasil já deveria estar em outro patamar de desenvolvimento. O dinheiro é jogado na máquina estatal, mas a qualidade dos serviços continua baixa”, afirma o jornal. Parece que os sócios do O Globo não se recordam da medida que tanto defenderam: o teto de gastos, que congelou as despesas primárias do governo federal, como saúde, educação e programas sociais, por 20 anos.

Fica evidente que o editorial do jornal O Globo é uma campanha difamatória contra os servidores e os serviços públicos e está a serviço da aprovação de mais uma medida antipovo no Congresso Nacional. Afinal, se a preocupação do jornal fosse de fato com a eficiência dos serviços públicos e a saúde da economia do país, fariam um editorial defendendo a taxação dos super ricos para aumentar a arrecadação do Estado.

A verdadeira realidade perversa que existe hoje no Brasil é da desigualdade social, alimentada por editoriais como esse que defendem cada vez mais a redução de investimentos nas áreas sociais.